Não é força de expressão! A exposição a sons altos ou constantes não corrói apenas a audição. Ameaça a cabeça e o coração.
Diferentemente da fuligem das chaminés e do escapamento dos carros, a poluição sonora é invisível e tem gente que até se acostumou com ela. Mas está ali, no meio de nós: motores e buzinas, músicas no volume máximo, obras nas ruas… E, pior, até altas horas da noite. “Mais que um incômodo, o excesso de barulho é um risco para a saúde”, declarou Zsuzsanna Jakab, diretora da OMS na Europa, em 2018. Risco para a audição, o coração, o cérebro… Precisamos falar — no tom adequado — sobre o assunto.
Ouvidos em pânico
Quem vê (e ouve) o vocalista e guitarrista Dave Grohl, de 53 anos, à frente de uma das maiores bandas de rock da atualidade, o Foo Fighters, não imagina que há 20 anos ele sofre de perda severa de audição.
“Para conversar com meus amigos, tenho que fazer leitura labial”, confessou. Ele bem que tentou fazer shows com protetor auricular, mas não se adaptou. Feito de acrílico, o acessório não elimina o barulho por completo, mas reduz consideravelmente o volume que chega aos ouvidos.
Grohl não é o primeiro astro do rock a admitir que sofre de zumbido ou surdez. Se eles resolvessem dividir o palco, teríamos uma banda daquelas: Bono Vox, do U2, ou Chris Martin, do Coldplay, nos vocais; Eric Clapton e Pete Townshend, do The Who, nas guitarras; Sting no baixo e Phil Collins na bateria.
“Não existe um critério objetivo para definir o que é som e o que é ruído. Para o público, um show é som, mas, para a vizinhança que quer dormir, é ruído”, diz o músico e arquiteto Marcos Holtz, diretor da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (Pro Acústica).
Durante um show do Foo Fighters, o volume de decibéis, a unidade que mede a intensidade sonora, pode chegar a 110 dB. Para você ter ideia, a OMS recomenda que os sons não passem de 50 dB — o equivalente a uma conversa em tom normal.
Na falta de um sonômetro, aparelho que mede a quantos decibéis estamos expostos, o conselho é simples: observe se você precisa elevar a voz para ser escutado pelo interlocutor. Se a resposta for “sim”, é provável que o som ambiente esteja acima do limite ideal
Na faixa de 55 a 65 dB, o ouvinte já começa a ter dificuldade para se concentrar numa tarefa ou dormir um sono reparador. Acima disso, o barulho começa a causar pequenos estragos, ainda que imperceptíveis. Não é preciso ir a um show de rock para tanto. Em casa, o ruído de um aspirador de pó ou de um secador de cabelo já bate 65 dB. Na rua, equivale a estar num restaurante cheio.
A partir dos 85 dB, corremos o risco de perder a audição ou ter prejuízos cognitivos no médio ou longo prazo. Quando chega a 140 dB, o ruído de uma explosão, corre-se o risco de destruir o tímpano, a membrana que protege o interior do ouvido. “Somos uma ilha cercada de barulho por todos os lados. Estamos tão viciados em barulho que, quando viajamos para o campo, nos incomodamos com o excesso de silêncio”, repara a clínica geral Dulce Pereira de Brito, coordenadora de saúde populacional do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.
Quando não é o som ao redor, somos nós que quebramos o silêncio e ficamos de fone de ouvido — frequentemente, com o volume acima do indicado.
FONTE: Revista Veja Saúde escrito por André Bernardo Atualizado em 24 Maio 2022, 09h59 – Publicado em 20 Maio 2022, 14h15.